Áurea Martins no palco do Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, na reestreia do show ‘Senhora das folhas’
Marcelo Castello Branco / Divulgação
Resenha de show
Título: Senhora das folhas
Artista: Áurea Martins
Local: Teatro Riachuelo (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 3 de novembro de 2022
Cotação: ★ ★ ★ ★
♪ Áurea Martins é samba, é batuque e é reza na mutação do tempo. Samba-enredo com o qual a escola de samba Portela desfilou no Carnaval de 1972, Ilu Ayê (Terra da vida) (Cabana e Norival Reis) ecoou na voz da cantora carioca 50 anos após ser cantado na avenida pelos componentes da agremiação carioca.
Louvação da nobreza do povo negro, Ilu Ayê é a novidade do roteiro do show Senhora das folhas em relação ao repertório do homônimo álbum lançado em março.
Luminoso ponto fora da curva na discografia da intérprete, por desviar Áurea Martins do universo do samba-canção rumo a um repertório que celebra as rezadeiras e curandeiras do Brasil, Senhora das folhas gerou show de aura sagrada que voltou à cena carioca na noite de quinta-feira, 3 de novembro, em apresentação feita no Teatro Riachuelo com as participações de Rita Beneditto e dos cantores Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti e Pedro Miranda.
Cantor presente no disco, André Gabeh também deu reforço vocal ao show, tendo sido merecida e entusiasticamente aplaudido ao interpretar Araruna (Nahiri Asurini e Marlui Miranda), canto da etnia Parakanã do Pará.
Do alto dos 82 anos, festejados em junho, Áurea Martins foi saudada em cena por cantores, pelos músicos da banda – formada por nomes como o baixista Guto Wirtti e o percussionista Marcos Suzano – e pelo público como uma das grandes damas da canção brasileira.
Aberto com Incelença da chuva nas vozes das Cantadeiras do Souza, ouvidas em off em registro extraído do (con)sagrado álbum lançado pela gravadora Biscoito Fino, o roteiro alinhou louvações ao divino que há na natureza, nas entidades e na alma humana.
Rita Benneditto canta ‘Ponto das caboclas’ com Áurea Martins na reestreia carioca do show ‘Senhora das folhas’
Marcelo Castello Branco / Divulgação
Com a voz em forma, Áurea Martins cantou O ramo (Socorro Lira, 2018), saudou as folhas e louvou Senhora Santana – com tema de origem medieval – antes de fazer o inventário das mesquinharias da alma humana em Me curar de mim (Flaira Ferro, 2015), número de alta voltagem emocional.
Rap de Projota que seguiu curso melódico no canto de Moyseis Marques na gravação do disco Senhora das folhas, A rezadeira (2014) perdeu parte da força e fluência no retorno do show ao Rio de Janeiro diante da impossibilidade do cantor de estar em cena (coube ao violoncelista Lui Coimbra, diretor musical do álbum, cantar no show a parte de Moyseis).
Em contrapartida, a presença radiante de Rita Benneditto – cantora identificada com o repertório afro-brasileiro de saudação a santos e orixás – iluminou a cena com Canto para Oxalá (tema de domínio público em adaptação de Rita Benneditto, 2006), a lembrança de Há mulheres (Vânia Borges, 1999) e o dueto com Áurea em Ponto das caboclas (Camila Costa, 2022).
Unindo batuque e reza no canto do samba, Áurea Martins engrandeceu Folha miúda (Roque Ferreira, 2022) – samba de toque rural e cadência mais baiana – e tomou Banho de manjericão (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1979) com Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti e Pedro Miranda, trio que entrara em cena para dar a devida altura ao partido Na paz de Deus (Arlindo Cruz, Sombrinha e Beto Sem Braço, 1986).
E por falar em altura, assim como o disco, o show Senhora das folhas já se impôs como um dos pontos mais altos da trajetória artística de Áurea Martins.
Fonte: G1 Entretenimento
