Teresa Cristina volta ao repertório de Paulinho da Viola, após 20 anos, já em outro lugar da música brasileira

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Com voz mais ativa, cantora extrapola o repertório de álbum lançado em 2002 em show que entrelaça sucessos e pérolas raras do compositor que faz 80 anos no sábado, 12 de novembro. Resenha de show
Título: Paulinho 80 + 20
Artista: Teresa Cristina
Local: Teatro Claro Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 5 de novembro de 2022
Cotação: ★ ★ ★ ★
♪ “Voltar quase sempre é partir para um outro lugar”, sublinhou Teresa Cristina, enfatizando no palco do Teatro Claro Rio o verso escrito por Hermínio Bello de Carvalho para a letra do Samba do amor (1968), parceria do poeta com Paulinho da Viola e Elton Medeiros (1930 – 2019).
O verso traduz o momento da cantora carioca. Vinte anos após ter se lançado no mercado fonográfico com o Grupo Semente no álbum duplo A música de Paulinho da Viola (2002), Teresa volta ao repertório do compositor carioca em show que estreou no mês em que Paulo César Baptista de Faria completa 80 anos.
Daí o título do show, Paulinho 80 + 20, apresentado no Teatro Claro Rio de 3 a 6 de novembro em quatro sessões lotadas e, por conta do sucesso, já programado para voltar ao mesmo palco em 7 e 8 de janeiro (antes, em 18 e 19 de novembro, a cantora apresenta o show para o público paulistano em duas apresentações na casa Natura Musical).
O verso de Hermínio ecoou pleno de sentido porque Teresa Cristina voltou ao repertório de Paulinho da Viola já situada em outro lugar da música brasileira, com voz que alcançou dimensão política na série histórica de lives feitas pela artista ao longo do pandêmico ano de 2020.
Sempre apoiada mais no sentimento do que na técnica, essa voz soou maturada em cena – evolução já perceptível nos recentes shows dedicados pela cantora aos cancioneiros dos compositores Cartola (1908 – 1908), Noel Rosa (1910 – 1937) e Zé Kétti (1921 – 1999) – a ponto de atingir ponto exemplar de introspecção no canto de Sinal fechado (1969) no bis.
Sem a notória timidez de 20 anos atrás, a cantora já vem se portando no palco com mais desenvoltura desde 2010. E, até por isso, o que se viu foi show fluente em que Teresa Cristina – ancorada no porto seguro de fantástico quarteto formado por Dirceu Leite (sopros), João Callado (cavaquinho e direção musical), Paulino Dias (percussão) e Samara Líbano (violão de sete cordas) – rebobinou e extrapolou o repertório do álbum de 2002 em roteiro corajoso que, na primeira metade, alinhou títulos menos conhecidos do cancioneiro de Paulinho da Viola.
Após abrir o show com a récita dos versos de Num samba curto (1971) e de entrar em cena com o samba Coisas do mundo, minha nega (1968), a cantora armou o jogo político de Brancas e pretas (Paulinho da Viola e Sérgio Natureza, 1982) no mesmo tabuleiro em que, na sequência, expôs as desilusões de Nada de novo (1969) e Sem ela eu não vou (1968).
Com direito a um solo de João Callado, Para não contrariar você (1970) comprovou o pleno entendimento de Teresa a respeito da obra concisa de Paulinho, criador de sambas geralmente entranhados em melancolia filosófica, com emoções concentradas, jamais derramadas.
O choro da cuíca de Paulino Dias em Para ver as meninas (1971) e a melancolia soprada por Dirceu Leite em Para um amor no Recife (1971) contribuíram para a criação de atmosfera adequada ao canto desses sambas.
Na sequência, a cantora deu voz a um samba pouco conhecido de Paulinho da Viola com Elton Medeiros, Pra fugir da saudade (1982), pérola rara da parceria dos compositores.
Número instrumental feito pela banda, Choro negro (Paulinho da Viola e Fernando Costa, 1973) funcionou como interlúdio que dividiu o show em dois atos.
Teresa Cristina em momento de concentração no show ‘Paulinho 80 + 20’
Gabriel Oliveira / Divulgação
Ao voltar ao palco, já vestida com as cores azul e branco da escola de samba Portela, Teresa Cristina iniciou bloco voltado para os sucessos do compositor, ainda que esse ato tenha abarcado outra pérola rara, O acaso não tem pressa (Paulinho da Viola e José Carlos Capinan, 1971), samba apresentado por Paulinho em disco há 51 anos e nunca mais regravado, nem pelo compositor, além de Exaltação à Madureira (Oscar Bigode, Noca da Portela e Poliba, 1966), único samba fora da lavra autoral de Paulinho da Viola, mas gravado pelo artista como integrante do conjunto A Voz do Morro.
Mais talhada para o primeiro ato pela introspecção, Tudo se transformou (1970) abriu e puxou esse bloco mais expansivo que incluiu Argumento (1975), Pecado capital (1975) e o samba-enredo Amor à natureza (1975). Esses três sambas de 1975 foram apresentados entre uma sequência de corações, aberta com Coração vulgar (1965), continuada com Coração leviano (1977) e encerrada com o samba-choro Coração imprudente (1972).
Voz ativista na luta a favor da democracia, Teresa Cristina cantou Onde a dor não tem razão (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1981) como a celebração de novos tempos marcado pela esperança de um Brasil melhor.
O animado medley com os sambas Perdoa (1976), Guardei minha viola (1972) e Pode guardar as panelas (1979) esquentou o clima para o fecho do show com Eu canto samba (1989) – manifesto de amor ao samba que soou sincero na voz de Teresa Cristina, devota do gênero – e para o bis que, além de Sinal fechado, incluiu Recomeçar (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1979) e Foi um rio que passou em minha vida (1969), samba arrasta-povo que explodiu no Carnaval de 1970, tendo sido lançado em EP no ano anterior, e que foi cantado com Teresa Cristina no meio da plateia, como se a cantora estivesse na avenida.
Ao se misturar no meio do povo, no arremate do bis, a cantora reiterou a sensação de que voltou ao repertório de Paulinho da Viola já em outro lugar, com voz mais ativa na música brasileira.
Teresa Cristina encadeia 30 sambas no roteiro do show ‘Paulinho 80 + 20’
Gabriel Oliveira / Divulgação
♪ Eis o roteiro seguido por Teresa Cristina em 5 de novembro de 2022 na terceira das quatro apresentações do show Paulinho 80 + 20 no Teatro Claro Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):
1. Num samba curto (Paulinho da Viola, 1971) – Samba recitado
2. Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola, 1968)
3. Brancas e pretas (Paulinho da Viola e Sérgio Natureza, 1982)
4. Nada de novo (Paulinho da Viola, 1968)
5. Sem ela eu não vou (Paulinho da Viola, 1969)
6. Samba do amor (Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, 1968)
7. Para não contraria você (Paulinho da Viola, 1970)
8. Para ver as meninas (Paulinho da Viola, 1971)
9. Para um amor no Recife (Paulinho da Viola, 1971)
10. Pra fugir da saudade (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1982)
11. Dança da solidão (Paulinho da Viola, 1972)
12. Choro negro (Paulinho da Viola e Fernando Costa, 1973) – Número instrumental
13. Tudo se transformou (Paulinho da Viola, 1970)
14. Exaltação à Madureira (Oscar Bigode, Noca da Portela e Poliba, 1966)
15. Recado (Paulinho da Viola e Casquinha, 1965)
16. Argumento (Paulinho da Viola, 1975)
17. Coração vulgar (Paulinho da Viola, 1965)
18. Coração leviano (Paulinho da Viola, 1977)
19. Coração imprudente (Paulinho da Viola, 1972)
20. O acaso não tem pressa (Paulinho da Viola e José Carlos Capinan, 1971)
21. Pecado capital (Paulinho da Viola, 1975)
22. Amor à natureza (Paulinho da Viola, 1975)
23. Onde a dor não tem razão (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1981)
24. Perdoa (Paulinho da Viola, 1976)
25. Guardei minha viola (Paulinho da Viola, 1972)
26. Pode guardar as panelas (Paulinho da Viola, 1979)
27. Eu canto samba (Paulinho da Viola, 1989)
Bis:
28. Sinal fechado (Paulinho da Viola, 1969)
29. Recomeçar (Paulinho da Viola e Elton Medeiros, 1979)
30. Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola, 1969)

Fonte: G1 Entretenimento