Trânsito planejado garante qualidade de vida, mas imprudência gera multas e acidentes em Palmas

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Novos moradores contam experiências positivas com o trânsito na capital. Especialista analisa que planejamento da cidade ainda atende às necessidades, só que é preciso olhar para o futuro e começar a repensar a estrutura viária. Trânsito no centro de Palmas durante o horário de pico
Otávio Frabetti
Há pouco menos de um ano a professora Ingrid Assis, de 36 anos, se mudou para Palmas ao conquistar uma vaga em concurso público. Acostumada a perder até duas horas por dia no trânsito em São Luiz (MA), se surpreendeu com a capital tocantinense. Segundo ela, o tempo que gasta de casa para o serviço agora é de apenas dez minutos e isso se refletiu na sua qualidade de vida.
“Para fazer todas as outras coisas você gasta pouco tempo porque é uma cidade planejada, você tem vias largas, tem vias que ainda comportam muito bem o trânsito de carros que precisam passar por elas. Então não tem grandes problemas com relação ao trânsito, pelo menos na minha avaliação”, relatou a professora universitária.
Mabel Proence, biomédica e perita criminal, chegou há quatro anos em Palmas e também relata satisfação com um trânsito mais tranquilo. “Não foi o motivo da minha mudança, nem permanência porque eu vim para ficar independente da situação, visto que vim para assumir um concurso. Mas, sem dúvidas, é um dos motivos que me alegra, me alivia e me deixa menos estressada e preocupada”, contou.
Os relatos demonstram como o trânsito tem o potencial de influenciar diretamente na qualidade de vida de seus usuários. Segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), os brasileiros que vivem nas capitais passam, em média, 2h do seu dia no trânsito para ir a lugares como o trabalho, escola, faculdade ou fazer compras. Isso equivale a 21 dias por ano.
Mas afinal, o que é o trânsito? Segundo o Código Brasileiro de Trânsito, trata-se da utilização das vias por pessoas, veículos e animais para circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga. Em resumo, é o espaço em que ocorre a movimentação, onde a cidade pulsa e respira diariamente.
O trânsito é orgânico, vivo e dinâmico, feito por regras, veículos e essencialmente de pessoas. “O trânsito é fluido e o planejamento deve ser entendido como algo estabelecido para um determinado momento e determinada sociedade. Assim o trânsito de décadas atrás não é o mesmo de agora”, explicou o perito criminal especialista em trânsito, Francisco Soares.
Professora Ingrid Assis se mudou para Palmas há menos de um ano
Arquivo Pessoal
Trânsito e estresse
Natural de São Luiz, a professora Ingrid viveu boa parte da vida na capital do Maranhão e é apaixonada por seu estado natal, mas conta como o trânsito prejudicava sua qualidade de vida.
“Quando você gasta muito tempo tendo que se deslocar de um lugar para o outro ou tendo que fazer aquele deslocamento cotidianamente e gastando nisso uma hora e meia, duas horas. Você percebe a sua qualidade de vida, a sua saúde física e mental se degradando porque passa muito tempo sentado dentro do carro. Perde muito tempo que poderia estar gastando com outras questões do seu dia a dia, fazendo coisas de lazer, gastando tempo com sua família e está ali preso naquele veículo.”
A biomédica também lembra bem como era o trânsito em Salvador (BA). “Caótico. Muito movimentado, engarrafado, barulhento, desorganizado e perigoso. Em Palmas é calmo, sem muito movimento, com vias largas, passagem livre e silencioso”, disse Mabel Proence.
A capital do Tocantins é conhecida e descrita com uma cidade planejada e de avenidas largas. Por outro lado, também é verdade que possui grandes vazios urbanos que impelem grande parte a população para regiões mais afastadas do centro urbano, aumentando as distâncias e o tempo gasto no trânsito.
Para o especialista, a cidade ainda é favorecida por sua condição geográfica. “Não há uma quantidade elevada de carros comparando com as vias. Nós possuímos vias largas, normalmente retas e planas, não possuem muitas curvas, subidas e descidas”, comentou.
Se a infraestrutura é propícia para um trânsito mais calmo, o comportamento dos condutores tem seguido por outro caminho. Dados da Secretaria de Segurança e Mobilidade Urbana de Palmas revelaram que nos últimos três anos têm sido registradas, em média, 16 mil multas por mês. As mais frequentes são por excesso de velocidade e por avançar sinal vermelho.
Frota de veículos em Palmas até o fim de 2021
Arte g1
“O trânsito em Palmas era para ser relativamente tranquilo, porém, sofre com o desrespeito por parte dos condutores. Exatamente por ter vias largas, os condutores têm a falsa perceção de que podem fazer o que quiserem naquela via. Acabam mudando de faixa de forma muito brusca, acabam não obedecendo determinadas regras, entrando e saindo de rotatórias desrespeitando as condutas de direção defensiva”, comentou Francisco Soares.
Conforme dados da Secretaria Nacional de Trânsito de 2021, em Palmas são 214.454 veículos divididos entre 313 mil habitantes – média de 0,6 por pessoa. Apesar de não haver uma excessiva quantidade de veículos nas ruas da cidade, os motoristas tem carregado uma elevada carga de estresse devido ao próprio comportamento imprudente.
“Eu acho que mesmo sendo uma cidade que tem a questão do trânsito tão bem desenhada, as pessoas ainda têm dificuldade de fazer coisas simples como sinalizar adequadamente, respeitar quem tem preferência na via. Isso era muito comum na minha cidade, mas também é comum aqui em Palmas. A estrutura viária se modifica, mas é incrível como a falta de educação de alguns motoristas é algo que independe disto”, analisou a professora.
O estresse e a imprudência acabam culminando em acidentes. De acordo com a Gerência de Estatística do Detran/TO, no ano de 2021, a capital do Tocantins registrou 666 acidentes. Em 2022, até o mês de julho, ocorreram 294 colisões no trânsito de Palmas.
Olhando para o futuro
Prefeitura fez alteração em algumas rotatórias de Palmas
Reprodução/TV Anhanguera
No início desta reportagem o especialista destacou que o trânsito é fluido, se modifica ao longo do tempo e precisa ser pensado considerando o momento de cada sociedade. Ou seja, é preciso planejar o que se espera da cidade daqui a 10, 20, 30 anos.
Em 2010, por exemplo, Palmas tinha 228.332 habitantes e uma frota de 108.247 veículos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2021, a população tinha subido 37%, alcançando o número de 313.349 moradores. A quantidade de veículos, por outro lado, quase dobrou neste mesmo período, alcançando 214.454 carros e motos.
O planejamento atual ainda atende às necessidades, mas é preciso começar a repensar o trânsito em Palmas. As rotatórias, por exemplo, estão longe de alcançar unanimidade entre os motoristas. São 229, no total. Uma a cada 500 metros, em média.
“Eu elencaria o excesso de rotatórias, não haveria necessidade de ao final de cada quadra ter uma rotatória, que acaba resultando em conflitos e atrasando o trânsito, fazendo com que não flua, não siga o fluxo tão bem. Além disso, os retornos à esquerda acabam gerando muito conflito.”
Há pouco mais de um ano o município publicou um decreto implantando mudanças nos modelos de rotatórias, mas até agora poucas foram remodeladas. Nesta nova proposta as rotatórias terão duas faixas no formato circular, enquanto a terceira, mais externa, terá um formato mais reto e contornando as quadras. O objetivo é facilitar a vida do motorista e diminuir os conflitos.
Outra iniciativa do poder público tem sido a implantação de áreas específicas para motociclistas nos semáforos da avenida Teotônio Segurado, uma das vias mais movimentadas da cidade.
O objetivo é priorizar os usuários de moto no momento da abertura do sinal, deixando estes veículos na frente dos carros para organizar o trânsito e evitar colisões.
Palmas agora conta com faixa exclusiva para motos
Reprodução/TV Anhanguera
O perito destaca que o poder público precisa identificar melhor os pontos críticos e atuar de forma mais incisiva, buscando soluções para cada situação. “Na região de Taquaralto, por exemplo, o cruzamento formado pela Rua 13 com a rua T-8 é um ponto crítico. Eu já fiz mais de dez perícias de acidentes neste cruzamento. Esse ponto precisa ser trabalhado, ou melhorar a sinalização ou trabalhar um processo de conscientização. O poder público precisa intervir”, comentou.
A professora Ingrid Assis acredita também que é preciso melhorar o transporte coletivo e apostar em transportes alternativos. Para isto a arborização próxima das vias é uma ferramenta importante.
“Você tem um meio-fio muito largo e sem a devida arborização. Poderia ser melhor arborizada, ter vias mais frescas por causa da arborização e isso também otimizaria que as pessoas utilizassem mais transportes alternativos como bicicletas porque se você tem uma arborização adequada você tem sombra, tem um conforto melhor para poder se deslocar usando bicicleta, por exemplo”.
Veja o funcionamento correto das rotatórias
Arte g1
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Fonte: G1 Tocantins